Em um dos vibrantes dias de folia que ecoaram pelo Rio de Janeiro, um bloco em particular se destacou, não apenas pela animação contagiante, mas pela potente mensagem de **diversidade**, **acolhimento** e **carnaval sem assédio**. O **Divinas Tretas**, que reuniu milhares de foliões para uma celebração marcante no Aterro do Flamengo, transcendeu a mera festa para se tornar um espaço de afirmação e **segurança** para a comunidade LGBTQIAPN+ e seus aliados, aproveitando a ocasião para levantar uma importante bandeira política: a luta por **justiça** no caso **Marielle Franco**.
Mais que Folia: As Raízes de um Bloco Pioneiro no Rio
O **Divinas Tretas** não é apenas mais um nome na extensa lista de blocos cariocas. Ele carrega consigo um legado significativo, sendo a evolução do histórico Toco-Xona, fundado em 2007 e reconhecido como o primeiro bloco **LGBTQIA+** da cidade do **Rio de Janeiro**. Após um hiato imposto pela pandemia de covid-19, o coletivo renasceu em 2022 com uma nova identidade, mas mantendo intacta sua essência: oferecer um espaço de celebração autêntica e livre de preconceitos. Embora o bloco tenha se concentrado no **Aterro do Flamengo**, optando por uma festa estacionária em vez de um cortejo pelas ruas, essa escolha sublinha a prioridade de criar um ambiente controlado e seguro para todos os seus participantes.
A proposta do **Divinas Tretas** alinha-se a um movimento crescente no **carnaval** brasileiro, onde blocos buscam não só divertir, mas também promover causas sociais e políticas. Em um cenário onde a folia muitas vezes pode ser marcada por incidentes de intolerância e assédio, iniciativas como esta se tornam faróis de respeito e inclusão, reverberando a cada ano em diversas cidades do país.
Música e Acolhimento: A Trilha Sonora da Inclusão
A atmosfera de **acolhimento** no **Divinas Tretas** é habilmente construída através de uma programação musical que é, por si só, um hino à **diversidade** brasileira. Com um repertório que transita entre samba, axé, piseiro e pitadas de rock em meio à cena pop, a banda do bloco e os DJs responsáveis pela animação buscam criar uma verdadeira colcha de retalhos sonoros que representa a pluralidade do público presente. “São músicas que levantam a galera”, explica a cantora e multi-instrumentista Karol Gomes, cuja performance com tamborim e microfone é central para a energia do grupo. Thaissa Zin, produtora executiva do bloco, complementa: “Tocamos músicas que o público gosta, de divas internacionais e divas brasileiras, em que vestimos a roupinha da gente”, ressaltando a identificação e a celebração da individualidade.
A DJ Laís Conti, uma das responsáveis por manter o público aquecido nos intervalos, enfatiza a intenção por trás de sua seleção: “Tocar na rua é saber tocar gêneros populares, em que as pessoas vão se sentir acolhidas, abraçadas”. Sua receita é transformar cada momento em um “set democrático e quente”, onde a melodia se torna um elo entre diferentes identidades e experiências, reforçando a ideia de que o **carnaval** deve ser um espaço genuinamente receptivo e diverso para todas as pessoas.
O Refúgio da Liberdade: Carnaval sem Medo e Julgamentos
A experiência de **segurança** e **liberdade carnavalesca** é o que realmente diferencia o **Divinas Tretas** para seus foliões. Em meio a um **carnaval** que, muitas vezes, ainda é palco de assédio e preconceito, o bloco se ergue como um santuário de respeito mútuo. A enfermeira Letícia de Almeida Lopes, de 26 anos, verbaliza essa sensação: “Este é um bloco em que eu consigo me sentir bem como mulher hétero ou como uma pessoa gay ou uma pessoa fora dos padrões. Um lugar em que eu consigo me sentir completamente à vontade para exercer minha liberdade carnavalesca. De botar a roupa que eu estou com vontade, seja mais ou menos coberta. Onde posso dançar o que eu tenho vontade e ouvir músicas que eu gosto”. Para ela, as pessoas vêm ao bloco “para serem felizes” e “não para fazer julgamentos”, culminando em uma “sensação de segurança” que é libertadora.
Essa percepção é corroborada por outros foliões. A vendedora Thaísa Galvão, 28 anos, afirma: “Me sinto muito bem. Dá para a gente se descontrair com os nossos amigos. Não tem nenhum tipo de briga. Todo mundo se dá bem. Por isso, eu sempre venho aqui”. A analista de operações Jennifer de Oliveira, também de 28 anos, adiciona um ponto crucial: “É o bloco que a gente se sente acolhida. Não tem homem assediando a gente, o que é libertador”. Esses depoimentos coletivos pintam um quadro do **Divinas Tretas** como um modelo de como o **carnaval** pode e deve ser: um espaço de irrestrita alegria, celebração da identidade e **respeito** mútuo, livre das amarras do preconceito e da violência.
Da Celebração ao Engajamento: A Voz Política no Carnaval
Para além da festa e da celebração da **diversidade**, o **Divinas Tretas** provou que o **carnaval** pode e deve ser um palco para a conscientização e a reivindicação de **direitos humanos**. Em um momento de efervescência, o bloco direcionou sua voz para um tema de profunda relevância nacional: a luta por **justiça** no assassinato da vereadora **Marielle Franco** e de seu motorista Anderson Gomes, ocorrido em março de 2018. A escolha de abordar este tema em plena folia não foi aleatória; ela ressalta a intrínseca conexão entre a liberdade de expressão carnavalesca e o engajamento cívico.
O bloco não se limitou a mencionar o caso; agiu. Foram distribuídos leques com a agenda do julgamento que se aproximava — marcado para os dias 24 e 25 de fevereiro no Supremo Tribunal Federal (STF). A iniciativa visava manter viva a memória e a cobrança por respostas. O julgamento envolvia figuras-chave como o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão, seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa, o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula e o ex-policial militar Robson Calixto, assessor de Domingos. Todos estavam presos preventivamente por suposta participação nos assassinatos. Essa ação do Divinas Tretas transformou a festa em um ato de vigilância democrática, reforçando que a alegria do **carnaval** não silencia a voz da cidadania.
Um Legado de Respeito e Inspiração para a Folia Brasileira
O **Divinas Tretas** representa um marco no **carnaval** contemporâneo, exemplificando como a folia pode ser um catalisador para a mudança social. Ao criar um ambiente de **acolhimento**, **segurança** e **liberdade** para a comunidade **LGBTQIA+** e todos que buscam um **carnaval sem assédio**, o bloco não apenas celebra a **diversidade**, mas também estabelece um padrão para outras manifestações culturais. Sua capacidade de integrar a alegria do festejo com o engajamento político, especialmente ao lembrar a luta por **justiça** para **Marielle Franco**, eleva a experiência carnavalesca a um patamar de profunda relevância social e cívica. O impacto do **Divinas Tretas** transcende o **Rio de Janeiro**, inspirando a construção de espaços mais inclusivos e conscientes em outras folias pelo país.
Este e outros exemplos demonstram que o **carnaval** pode ser um agente transformador, reafirmando que a celebração da vida e da cultura pode andar de mãos dadas com a defesa de **direitos humanos** e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Para continuar acompanhando as notícias mais relevantes, aprofundadas e contextualizadas sobre cultura, política e sociedade, fique sempre conectado ao RP News. Nosso compromisso é levar a você uma informação de qualidade, que vai além do factual e te ajuda a entender o mundo ao seu redor.